maio 09, 2004

Maio É Mês de África em Lisboa

«O continente africano estará em destaque em Lisboa durante todo o mês de Maio, numa iniciativa multidisciplinar que visa assinalar o Dia de África, que se comemora no próximo dia 25. A iniciativa, denominada "Maio - Mês de África em Lisboa", é organizada pela RDP-África em conjunto com a Câmara de Lisboa e as embaixadas africanas em Portugal e foi ontem apresentada na capital. A abertura do programa está agendada para 4 de Maio no Centro Cultural de Belém com a realização do seminário "África Século XXI", com as presenças do presidente moçambicano, Joaquim Chissano, e do seu homólogo português, Jorge Sampaio. Exposições, debates, conferências, provas desportivas, dança, teatro e concertos musicais são outras das actividades com que os organizadores pretendem transformar Lisboa na "capital africana da Europa" e que envolvem associações, universidades e discotecas da cidade.»

Pensava que já estava em destaque permanente, ao longo do ano inteiro... mas isto deve ser o ódio, racismo, xenofobia, e intolerância que me leva a pensar assim...

Deixo aqui uma sugestão à "única alternativa nacionalista viável em Portugal" de organizar o Mês da Europa em Junho, em conjunto com a Câmara, e fazerem exposições, debates, conferências, provas desportivas, dança, teatro e concertos musicais para transformar Lisboa na "capital dos europeus".
Pelo menos tentem, se a resposta da Câmara for negativa, podem fazer disso uma arma. «É tudo uma questão de estratégia».

É apenas uma sugestão, a ver se se deixam de politiquices baratas, como conferências para amigos, e se se abrem à sociedade civil, porque o futuro de um partido está aí, e não nos grupos anti-sistema que rejeitam essa abertura. Já que usam tanto o nome da FN para se aproveitarem do seu mediatismo podiam ao menos seguir os seus (bons) exemplos. «Mas isto é apenas a minha opinião».

Publicado por porco em 08:33 PM | Comentários (13) | TrackBack

abril 15, 2004

Querem roubar-nos a Europa? Não vamos deixar...

Como cidadãos portugueses orgulhosos da sua herança cultural comum, enraizada nos nossos longínquos antepassados, vimos por este meio protestar veementemente contra qualquer tentativa de alterar a actual lei da nacionalidade no sentido de esta facilitar a sua adopção por qualquer indivíduo que nasça acidentalmente em Portugal.
Se um português ou qualquer outro europeu nascer por acaso na China ou na Arábia, será porventura considerado Chinês ou árabe?
Só é Português quem for descendente de portugueses! A nacionalidade herda-se, não se compra!
Todas as outras situações serão consideradas como excepções que confirmam a regra.
Consagre-se na lei o conceito de jus sanguinis!
Proteja-se a nossa identidade.

Com os melhores cumprimentos

Publicado por porco em 01:45 PM | Comentários (3) | TrackBack

Fallaci califica a Europa de «Eurabia, provincia del Islam»

Bajo el curioso título de «La Fuerza de la Razón», Oriana Fallaci dispara un nuevo libro contra «el colonialismo islámico que siempre ha soñado con sojuzgar Europa porque además de ser rica, avanzada y abundante en agua, es la cuna del cristianismo», y contra la Triple Alianza culpable de alta traición: la derecha, la izquierda y la Iglesia Católica, que entregan el Continente cristiano a las hordas musulmanas.

En esta secuela de «La Rabia y el Orgullo», Fallaci, que califica a Europa de «Eurabia Saudí, provincia del Islam», se presenta como una víctima de la Nueva Inquisición organizada por «los caballeros de la Triple Alianza, parlamentarios, europarlamentarios, extraparlamentarios, jefes de partidos, obispos, arzobispos, cardenales, ayatolas,imanes, directores de periódicos y funcionarios de la RAI».

En su persona, el reformista Mastro Cecco, quemado en el año 1328, «vuelve a subir a la hoguera. No a la hoguera en la que está ya, lo repito, nuestra civilización, sino a su hoguera personal». Avanza el macabro cortejo «y detrás de todos me arrastro yo descalza, desangrada, consumida, envuelta en un sambenito similar a un burka y ridiculizada con la mitra de pan de azúcar que me han puesto en la cabeza».

La escritora desenmascara como traidor incluso a Gianfranco Fini, jefe de Alianza Nacional, por proponer el voto para los inmigrantes en las elecciones municipales para incorporarlos a la vida cívica italiana. Mientras el país leía perplejo el prólogo en el diario Corriere della Sera (propiedad de Rizzoli, que edita el libro de Fallaci), la Liga Norte lo recibió con un aplauso. El ministro de Justicia, Roberto Castelli, declaró a los micrófonos de Radio Padania que ve «en el libro a la Liga y, en primer lugar a Umberto Bossi», quien propuso en su día que la Marina de Guerra hundiese los barcos, una vez vacios, en los que se trasladan los inmigrantes a cañonazos.

Publicado por porco em 12:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 09, 2004

Orlando Castro: «Feios, porcos e maus»

Há um ano, o Editorial do Notícias Lusófonas tinha o título «Feios, porcos e maus». António Ribeiro dizia que é «assim que nós, portugueses, vamos ficar para a História se não for convenientemente investigado e esclarecido o caso de pedofilia que envolve a Casa Pia de Lisboa e exemplarmente punidos todos os que nele participaram e também aqueles que, por negligência ou omissão, permitiram a continuação de tais práticas durante mais de duas décadas.»

Na altura escrevi que não podia estar mais de acordo. Hoje volto a escrever que não posso estar mais de acordo. E, pelos vistos, todos estão de acordo, até mesmo aqueles que em tempo útil deveriam ter feito alguma coisa para evitar tão monumental escândalo.

A desvergonha «made in Portugal» não tem limites.

Um ano depois serão, certamente (muito) poucos os que acreditam que vai haver justiça neste caso de pedofilia da Casa Pia. Continuo a acreditar que não vai haver justiça. E não vai porque, para além dos políticos (e similares: polícias, tribunais, jornalistas etc.) serem feios, porcos e maus são, ainda, cobardes.

São os desse tempo por calarem e são os de hoje por estarem voluntariamente amarrados.

Quem matou Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Ferreira Torres etc. etc.? Quem cometeu os crimes do Ambriz (Angola)?

Ninguém, em termos de justiça. Todos nós, em termos morais. Sermos feios, porcos e maus parece algo que está no sangue, salvo algumas (muito poucas) excepções. Tão poucas que até os Jornalistas que agora falam do assunto vão, como o foram os que no início da década de 80 avançaram, ficar calados.

E esse silêncio será recompensado. É só uma questão de tempo. Não tardará muito e estarão como directores ou administradores de um qualquer órgão da comunicação social... que o diga, no caso do Ambriz, Fernando Lima, então assessor do ministro Martins da Cruz e hoje director do Diário de Notícias.

Os Jornalistas mais teimosos poderão, a todo o momento, entrar para a lista de dispensáveis... pelos altos serviços prestados.

Deixem-me, também por comodismo mas sobretudo por estar de pleno acordo, continuar a citar o brilhante texto do António Ribeiro.

«O que aqui está em causa não se pode compadecer com os proverbiais brandos costumes portugueses nem com o velho hábito de deixar tudo nas meias tintas. O que aqui está em causa são crimes praticados contra crianças indefesas - antes de mais por serem crianças e depois por serem crianças provenientes de lares pobres ou pura e simplesmente de lares nenhuns - que tinham como único suporte instituições para as acolher, educar e preparar para o futuro.»

É exactamente isso. E por ser isso é que, mais uma vez, ninguém se lembra de ter ouvido falar em tal crime. Presidentes da República, ministros, secretários de Estado, deputados, procuradores gerais da República, magistrados, polícias etc. foram todos atingidos por uma conveniente amnésia.

Tão conveniente que, creio, até poderá um dia destes dar direito a uma comenda pelos altos serviços prestados à Nação...

Diz o António Ribeiro (num texto que, permitam-me a opinião, é uma verdadeira obra prima) que «são crimes hediondos praticados por adultos que, acoitados na impunidade do poder e na conivência dos silêncios comprados, praticaram sevícias que mutilaram física e psiquicamente centenas de crianças e as marcaram para o resto das suas vidas. Aquelas que não se mataram. De nojo. De medo. De desespero.»

É isso mesmo. Crimes hediondos, impunidade, silêncios comprados e mutilação física e psicológica.

Convenhamos, contudo, que os silêncios continuam a ser comprados para encobrir esses crimes hediondos. Tal como foram outros, tal como serão outros. Portugal começa a deixar de ser um país (Nação há muito que o deixou de ser) para passar a ser, apenas e tão só, um lugar muito mal (muito mal) frequentado.

Na minha opinião este é mais um caso que vai ficar, que já está, em águas de bacalhau. Pelo cheiro, a água já está putrefacta. Mas, apesar disso, há sempre alguns (ao que parece são muitos) para quem chafurdar na merda é uma questão de vida.

Publicado por porco em 02:49 PM | Comentários (1) | TrackBack

CEOs: O Triunfo dos Porcos

Os Novos Caçadores de Fortunas

Versão original publicada no semanário português Expresso em Outubro 2003

Esta autêntica revolução é mais visível nos Estados Unidos onde a revista Fortune já os comparou com o "Triunfo dos Porcos". Mas é universal. Uma camada de profissionais da alta gestão conseguiu arrecadar fortunas incalculáveis, mesmo com a quebra nos negócios e com a destruição de vários biliões de dólares de valor bolsista. Apesar da revolta dos accionistas, é pouco provável que a ascendência política e social deste grupo seja estancada.

Ainda estão quentes as fraudes das valorizações bolsistas artificiais das empresas e grupos norte-americanos no período da "bolha" seguidas da realização atempada de mais-valias pelos seus dirigentes, cirurgicamente antes das falências. O caso mais emblemático destes escândalos financeiros foi o da Enron.

Contudo, a "raiva accionista" já se virou contra outro alvo. A revolta dos investidores nas empresas cotadas em bolsa atingiu em força, este ano, os pacotes de remuneração anual e de compensações em caso de despedimento ou demissão dos directores-gerais - CEO na designação anglo-saxónica - das grandes empresas.

Mas a história deste folhetim tem de começar dois anos atrás. Está, ainda por apurar o que rendeu aos CEO e outros directores e executivos, mais habilidosos e bem apoiados por consultores, auditores e analistas, o mecanismo que ficou conhecido por "dar à bomba e esvaziar de seguida" - ou seja, inflaccionar primeiro o valor das acções para depois, rapidamente, vendê-las e encaixar fortunas, antes da falência.

O milagre dos vasos comunicantes

Sabe-se hoje que os valores das acções nos Estados Unidos caíram de um pico de 17,1 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-saxónica) para 9,9 no final de 2002 - desapareceram em dois anos das bolsas norte-americanas 7,1 biliões de dólares!

No entanto, pelo efeito dos vasos comunicantes na riqueza das famílias, os activos tangíveis (imobiliário, nomeadamente) e os financeiros não denominados em acções (depósitos, por exemplo) cresceram, no mesmo período, 6,2 biliões. Ou seja, o que desapareceu de um lado, apareceu, quase por inteiro, no outro.

Pelo caminho "perdeu-se" 1 bilião até final de 2002, 2% da riqueza das famílias em 1999. O problema é que esses 2% afectaram irremediavelmente a família comum americana que acreditou no sonho do capitalismo popular.

Pelo caminho "perdeu-se" 1 bilião até final de 2002, 2% da riqueza das famílias em 1999. O problema é que esses 2% afectaram irremediavelmente os pequenos e médios accionistas, a família comum americana que acreditou no sonho do capitalismo popular, e os Fundos que geriram sobretudo essas aplicações dos empregados simples.

O mesmo fenómeno dos vasos comunicantes está a ser hoje redescoberto pelos accionistas em relação às remunerações dos dirigentes empresariais. A própria revista Fortune já mimoseou uma parte dos seus próprios leitores com uma capa bem provocatória: "Oink! As remunerações dos CEO estão fora de controlo! - Saiba porquê".

"Oink" é o grunhido do porco e na capa da edição de 28 de Abril deste ano a revista vestia um porco com um fato de executivo. No fundo, assistíamos ao triunfo dos porcos, numa alegoria à célebre "Quinta dos Animais" de George Orwell. Não por acaso, o dossiê da revista abria com um artigo intitulado "Não terão eles vergonha?", em que uma citação daquela obra de Orwell fazia honras de introdução.

O triunfo dos porcos

A falta de vergonha dos novos senhores viria dos encaixes nas remunerações e pacotes dourados de demissão ou reforma.

Os CEO que se demitiram das empresas norte-americanas adquiridas ou que se fundiram com outras cotadas levaram, em média, mais 4 a 5 milhões de dólares do que seria "normal". Um múltiplo de 6 a 9 vezes sobre os rendimentos anuais dos CEO antes da aquisição ou da fusão, diz um estudo de três académicos da Universidade de Nova Iorque e do Texas. Vender a empresa ou empurrá-la para uma fusão passou a ser um bom negócio pessoal.

Outra avaliação feita por Paul Hodgson, do The Corporate Library - um observatório do mundo das grandes empresas -, em relação aos anos de 2001 e 2002, já no período de crise, revela que cada uma das "saídas douradas" de CEO das 500 maiores empresas norte-americanas pertencentes ao índice bolsista S&P rendeu, em média, 16,5 milhões de dólares.

As saídas de bolso cheio deram-se ao mesmo tempo que essas empresas atravessavam períodos muito difíceis - como nos casos da Tyco, Qwest, Lucent, The Gap, WorldCom e AOL/Time Warner. O triunfo das benesses teria chegado ao cúmulo: «Com pacotes de remuneração de 15 milhões para iniciar o cargo e de 16,5 para depois o largar, o CEO nem precisa de fazer grande dinheiro durante o exercício do cargo nem de cuidar da saúde da empresa - que estímulo tem ele para se mexer a favor da sustentabilidade da empresa, dos empregados e do valor para os accionistas, se tem o seu já garantido?», ironiza Hodgson.

Segundo um estudo da central sindical AFL-CIO, o diferencial nos EUA entre o pacote anual de um CEO e o salário médio de um empregado passou de 42 vezes em 1980 para 85 vezes em 1990 e para 531 vezes em 2001. Deste patamar - para alguns "obsceno" - desceu para 281 vezes em 2002.

Na história do capitalismo, chegara a hora dos novos caçadores de fortunas.

As desigualdades gritantes vieram, então, a lume. Segundo um estudo da central sindical AFL-CIO, o diferencial nos EUA entre o pacote anual de um CEO e o salário médio de um empregado passou de 42 vezes em 1980 para 85 vezes em 1990 e para 531 vezes em 2001. Deste patamar - para alguns "obsceno" - desceu para 281 vezes em 2002.

Ainda em 2002, as 50 grandes empresas cotadas norte-americanas que mais despediram - cerca de meio milhão de pessoas - viram o valor global das remunerações dos seus CEO chegar a mais de 570 milhões de dólares, segundo um estudo do Instituto for Policy Studies e do United for a Fair Economy.

Em Inglaterra, o fosso entre as dinâmicas de crescimento das remunerações dos CEO e dos empregados aumentou 6 vezes. Segundo um estudo da Incomes Data Services, os CEO das 100 principais empresas do índice bolsista londrino FTSE teriam auferido um aumento de 288% na última década - quase 30% em média por ano -, enquanto que a arraia miúda teria tido direito a 45% de aumento - ou seja, 4,5% ao ano.

Por seu lado, em França, em 2001, segundo a consultora Proxinvest, os 39 principais PDG (presidente-director geral) receberam uma remuneração média 554 vezes superior ao salário mínimo interprofissional (SMIC). E, segundo o jornal Le Monde, os 20 principais líderes empresariais tiveram um aumento médio anual de 20,75% em 2002, em plena recessão.

A galeria da infâmia

Não admira, por isso, que a tampa da panela tenha saltado nas Assembleias Gerais. 2003 foi o ano em que os media descobriram o activismo dos accionistas e passaram a fazer eco da sua "raiva".

A convicção transmitida pelas manchetes das secções de economia e finanças dos jornais é que os accionistas e os trabalhadores estão a pagar a crise, enquanto que os CEO e outros dirigentes empresariais estariam a lucrar com ela.

No Reino Unido, pela primeira vez na história, os accionistas de uma grande empresa, a Glaxo Smith Kline, rejeitaram, em Maio de 2003, um pacote de 31 milhões de euros a que a direcção da empresa se tinha auto-atribuído e ao seu líder Jean-Pierre Garnier. Esta benesse chocava com uma queda nos lucros de 25%, uma quebra de 30% no valor das acções e fracos resultados no "pipeline" de saída de produtos novos. O voto de protesto não tem, contudo, poder efectivo. Mas ficou o sinal.

O jornal inglês The Independent criou inclusive uma classificação dos dirigentes das empresas cotadas relacionando os seus pacotes dourados com a saúde bolsista e económica da empresa. Os lugares da galeria da "infâmia" são regularmente publicitados - o ex-líder da British Telecom e o ainda líder da Vodafone ocupam as posições cimeiras.

Na Alemanha, o concelho de administração do grupo Mannesmann AG e o seu ex-líder Joseph Ackermann (hoje CEO do Deutsche Bank) estão a ser investigados por abuso de confiança ao terem atribuído há 3 anos uma benesse de 56 milhões de euros para a antiga equipa dirigente.

Dois personagens ilustres da história da ABB - Percy Barnevick e Goran Lindahl - tiveram de devolver, no ano passado, mais de metade das suas reformas douradas: cerca de 100 milhões de dólares que voltaram aos cofres da bem necessitada ABB.

Por seu lado, na Suíça, dois personagens ilustres da história da ABB - Percy Barnevick e Goran Lindahl - tiveram de devolver, no ano passado, mais de metade das suas reformas douradas: cerca de 100 milhões de dólares que voltaram aos cofres da bem necessitada ABB.

Ainda na Europa, mas em França, o PDG da Alstom, Pierre Bilger, por pressão dos media e judicial, acabou por restituir 4,1 milhões de euros da sua indemnização quando saiu e deixou o grupo na falência. O mediático ex-PDG da Vivendi, Jean-Marie Messier continua em litígio por 20,5 milhões de euros de indemnização a que ele acha que tem direito quando foi corrido da empresa no ano passado.

Nos EUA, Richard Grasso, responsável da Bolsa de Nova Iorque, demitiu-se em Setembro, em virtude da revelação de um pacote dourado de 188 milhões de dólares, segundo o The Economist. Mesmo em plena depressão, no ano passado, os 15 principais dirigentes empresariais mais bem pagos dos EUA ganharam, em média, cada um, 35,8 milhões de dólares, segundo a Standard & Poor's.

O próprio Jack Welch, ex-CEO da General Electric, um mito dos anos 90, começou a ser olhado com reprovação face aos milhões de dólares anuais de pensão de reforma e outras benesses reveladas pela sua ex-mulher no processo de divórcio.

A revolta dos capitalistas colectivos

Entretanto, os grupos de accionistas começaram a agir. Desde os anos 70 que surgiram o que Peter Drucker baptizou de "capitalistas colectivos", os Fundos que recolhem as aplicações de milhões de empregados. Desde 2001, que alguns destes Fundos organizaram uma rede informal, que agrupa o Morley Fund Management (inglês), o poderoso CalPERS - California Public Employees' Retirement System e outros protagonistas na Alemanha, Canadá, Suécia e Japão. No Canadá formou-se em 2002 uma denominada Coligação para a Boa Governação Empresarial, que abrange 19 fundos muito activos.

Os efeitos deste activismo começaram a sentir-se. Nos EUA cerca de 300 resoluções de accionistas já deram entrada este ano na Securities and Exchange Commission (SEC, a entidade reguladora) propondo acções de alteração da forma como os gestores de topo são pagos. Uma campanha organizada pela central sindical AFL-CIO - que tem volumosos investimentos em Fundos - levou ao envio de 8000 cartas à SEC.

Em França, a Assembleia Nacional relançou este mês uma Missão de Informação sobre os salários dos altos dirigentes das empresas e o próprio comissário europeu para o Mercado Interno, Frits Bolkestein, pronunciou-se publicamente contra os pacotes dourados dos CEO europeus.

O poder de portagem

Contudo, a questão central não reside nas remunerações dos CEO olhadas individualmente. Elas derivam de um "direito de portagem" como lhe chamou Roger Martin, um canadiano, reitor da Escola de Negócios da Universidade de Toronto. A cobrança de portagem exerce-se sobre a riqueza gerada pelas empresas cotadas. Esta camada emergente de gestores de topo tem-se afirmado desde os anos 70 e com a "bolha" da Nova Economia viu a janela de oportunidade para a galinha dos ovos de ouro.

O direito de portagem advém do facto dos 5000 executivos que se sentam nos conselhos de administração das 500 empresas cotadas do índice S&P gerirem 7,9 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares. Gerem-nos em nome dos "capitalistas sem rosto" dos Fundos e dos accionistas dispersos.

O direito de portagem advém do facto dos 5000 executivos que se sentam nos conselhos de administração das 500 empresas cotadas do índice S&P gerirem 7,9 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de dólares. Gerem-nos em nome dos "capitalistas sem rosto" dos Fundos e dos accionistas dispersos.

Mas o verdadeiro poder não vem só dessa cadeira - deriva das "conexões" quer sejam formais (outras cadeiras em conselhos de outras empresas e organizações) ou informais (as relações interpessoais).

Há um organismo nos EUA que se dedica a analisar essas relações. O The Corporate Library, a que já nos referimos, publicou em Setembro um estudo sobre as interligações entre directores e empresas. Usando uma ferramenta informática, a análise feita pelo investigador Jackie Cook abrange 2100 empresas cotadas e 20 mil directores em 21500 direcções e conselhos, e dispõe, ainda, de uma listagem de 1500 organizações (fundações, organismos caritativos, clubes, "think-thanks" e redes de ex-alunos) e de 10 mil relacionamentos deste tipo.

O estudo revelou o papel central de 15 personagens com o maior número de ligações e de 15 empresas com a maior malha de conexões - como a Verizon, Pfizer, USSteel, Bank of America, AMR, J.P. Morgan Chase, Sara Lee, General Electric, Dow e 3M.

Em França, há alguns anos atrás, o jornalista Gabriel Milési fez um levantamento, ainda que sem a ajuda do software, que foi divulgado em As Novas 200 Famílias - as dinastias do dinheiro, do poder financeiro e económico, editado pela Belfond.

Os analistas do The Corporate Library opinam que é sobre esta rede que as regras de transparência da boa governação devem actuar em prioridade. São estas redes que tomam todas as decisões estratégicas, incluindo atribuírem-se uns aos outros os famosos pacotes dourados.

A questão da ética nos negócios tem sido levantada como solução-chave por muitas escolas de negócio que querem transformar a "business ethics" num segmento de negócio na formação. Tanto nos EUA, como na Europa - em que o mais recente escândalo, de final de ano, envolvendo a Parmalat italiana, aqueceu, ainda mais, o tema.

Nos Estados Unidos, a história do rebentar de escândalos empresariais durante a época de recessão e depressão, após as euforias bolsistas e o aquecimento cíclicos das economias, é já longa. Nos anos 20 foi o Teapot Dome, com a venda secreta de reservas de petróleo federais e nos anos 70 e 80 os escândalos ligados aos contratos da área da Defesa. Também nos anos 80, o "inside trading" bolsista levou às práticas pioneiras das "junk bonds" para financiar os "raiders". Nos anos 90, assistimos à loucura dos "derivados" e ao escândalo financeiro no seu uso. Na Nova Economia assistimos, de novo, à "criatividade" nos mecanismos contabilísticos.

Nas épocas de euforia, desenvolvem-se, sempre, "janelas de oportunidade" para os crimes especulativos e de "criatividade" contabilística.

Guerra perdida?

Muitos analistas duvidam que esta "guerra" dos accionistas contra os novos caçadores de fortuna seja ganha nas próximas décadas, apesar do crescente peso da ética no discurso dos negócios e da vigilância constante exercida pelos media e até por "blogs" pessoais na Web.

Os novos caçadores de fortuna revelam um talento especial para a gestão de topo - tal como a nata dos artistas, dos jogadores e dos gurus de management e tecnologia revelam nas suas áreas, dizem os seus defensores. São "estrelas" e são disputadas a peso de ouro, afirmam os "caçadores de cabeças" (os "headhuntings") para as grandes empresas.

Não haveria alternativa a lutar até ao limite por um bom pacote dourado, dada a volatilidade das carreiras e dos lugares de CEO, que são cada vez mais de desgaste rápido, sujeitos ao paradigma da fralda descartável - usar e deitar fora. Jean-Pierre Garnier, da Glaxo, a que já nos referimos, teria dito ao Daily Telegraph que «não sou nenhuma Madre Teresa de Calcutá».

O argumento usado pelas próprias grandes empresas cotadas é que esses pacotes dourados são uma cenoura indispensável - uma "vantagem competitiva" na atracção dos talentos, como o explicou aos accionistas Carly Fiorina, a mulher que dirige os destinos da Hewlett-Packard.

«Mas logo que o mercado de capitais retome - e que os accionistas se sintam melhor das perdas astronómicas - toda essa fúria passará para segundo plano», alvitra o consultor Peter Cohan, que gostaria que as remunerações dos CEO fossem indexadas a um "quociente de valor" da empresa, uma metodologia que ele acaba de divulgar no seu livro Value Leadership.

Mas Roger Martin adverte que o que está aparentemente ligado ao ciclo eleitoral e ao período baixo das bolsas, poderá transformar-se em algo "estrutural". Iremos assistir a um "choque classista" entre o Capital colectivo dos accionistas e o Talento dos gestores de topo pela partilha do bolo da riqueza e do próprio poder político.

Quer Cohan, quer o reitor Martin - o criador do tal conceito de "portagem" - são de opinião que o actual ataque às benesses dos CEO é fruto de "uma estratégia política temporária", de captação eleitoral populista enquadrada nos EUA por uma parte do Partido Republicano.

Mas Roger Martin adverte que o que está aparentemente ligado ao ciclo eleitoral e ao período baixo das bolsas, poderá transformar-se em algo "estrutural". Num artigo recente que publicou na edição de Julho da revista Harvard Business Review - a bíblia dos gestores -, opina que iremos assistir a um "choque classista" entre o Capital colectivo dos accionistas e o Talento dos gestores de topo pela partilha do bolo da riqueza e do próprio poder político.

Foi em 1951 que James Burnham, um ex-esquerdista dos anos 30 tornado ideólogo da nova direita dos anos 50, falou da "revolução dos gestores" (no livro The Managerial Revolution) e do seu impacto político, pintando os gestores de topo como a classe dirigente emergente. A profecia de Burnham irá tornar-se realidade?

Publicado por porco em 09:46 AM | Comentários (0) | TrackBack